



Em
épocas pré-históricas, antes que o homem
pudesse ler ou escrever, um legendário
mercador viajante da Arábia, atravessando uma
agreste secção montanhosa da Ásia, já
cansado, depois de uma áspera subida sob sol
causticante, fez uma pausa
para restaurar suas forças e se alimentar.
Tinha trazido como alimento tâmaras secas e,
dentro de um cantil feito de estômago seco de
carneiro, certa quantidade de leite de cabra.
Mas,
quando ele levou aos lábios o cantil para
sorver o leite, somente um líquido fino e
aquoso escorreu de seu interior. Curioso,
Kanana, o lendário viajante, cortou o cantil
e viu, para sua surpresa, que o leite tinha se
transformado numa coalhada branca, não muito
desagradável ao paladar de um homem faminto.
O coalho existente no estômago parcialmente
seco do carneiro havia coagulado o leite, e o
resultado dessa operação química foi o
queijo. Isso se passou há milhares de anos, e
ainda hoje, faz-se o queijo exatamente de modo
semelhante: coagulando o leite com coalho
oriundo de estomago de bezerros.
O queijo é um dos mais antigos alimentos
preparados que a história da humanidade
registra. A arte da fabricação de queijos
tem seu início perdido num passado remotíssimo,
milhares de anos antes do nascimento de
Cristo. Os egípcios estão entre os primeiros
povos que cuidaram do gado e tiveram, no leite
e no queijo, fonte importante de sua alimentação.

Isso
foi possível porque o fértil vale do Nilo
possuía ricas pastagens cheias de cabeças de
gado. Tão importante era o bovino para os egípcios
que a simbologia desse povo eternizou sua
importância colocando chifres de vaca sobre a
cabeça da deusa Hathor. Era ela que velava
pela fertilidade do solo e causava o
transbordamento do Nilo, tornando fecundas as
terras áridas. Quando o rio transbordava, era
celebrado o festival de Osiris e, nessa
solenidade, uma vaca bem escovada e lustrosa
era carregada em procissão cerimonial. Leite
de ovelha era também largamente usado pelos
antigos egípcios na fabricação de queijos,
mas as incompletas páginas da história não
nos deixaram registros dos métodos usados por
eles. A Bíblia é rica em referências às
vacas e ao leite, e os hebreus do Antigo
Testamento louvavam com freqüência o queijo
como um dos mais nutritivos alimentos.
Entre as provisões que o pequeno David levou
para o exército antes que ele desafiasse e
matasse o gigante filisteu, Golias, havia dez
queijos. Grande parte da vida de David foi
passada em contacto com rebanhos e naqueles
longínquos dias o guardador de gado gozava da
confiança e do respeito da comunidade.
Quando Jacob e seus filhos foram expulsos pela
fome da terra de Canaã e acharam refúgio no
Egito, onde José, o filho perdido,havia se
tornado um homem poderoso, eles se dirigiram
ao Faraó nestes termos: "A ocupação
destes teus servos tem sido cuidar de gado
desde nossa mocidade até agora; não somente
nós, mas nossos pais também". O queijo,
nos obscuros e distantes dias ancestrais, teve
um desenvolvimento lógico e inevitável, pois
era o único meio pelo qual os elementos
nutritivos do leite podiam ser preservados. Os
antigos gregos reverenciaram o queijo como um
alimento dos deuses e, com impressionantes
cerimônias e súplicas, apresentavam queijos
como oferendas no Monte Olimpo.
A fabricação
de queijos na Grécia já era bem conhecida no
tempo de Homero, embora o país, devido ao seu
terreno montanhoso, não
fosse abundante em terras
de pastagens. Hipócrates, em seus escritos,
refere-se ao queijo feito de leite de égua e,
também, de leite de cabra, o que podia
indicar que esses dois animais eram mais
apropriados para viverem em terrenos
montanhosos. Otesia, um filósofo grego que
viveu cerca de 400 anos antes de Cristo, conta
uma bela lenda sobre a famosa rainha assíria,
Semiramis que, em criança havia sido
alimentada por pássaros com queijo roubado de
pastores. O pastoreio parece ter sido objeto
de muita controvérsia entre os criadores de
gado até que os estados gregos fizessem
tratados, repartindo eqüitativamente, pedaços
úteis de terra e, além disso, encorajando a
fabricação de queijo.

Fotos
Royalty Free - CORBIS
Em
tempos idos, as planícies verdejantes do
norte e oeste da Ásia central, eram povoadas
por ferozes tribos nômades chamadas Arianas,
ancestrais comuns das raças brancas. Esses
arianos, incansáveis, fortes e atrevidos,
alimentavam-se principalmente dos produtos de
seus rebanhos e foram, provavelmente, uma das
primeiras raças que domesticavam o gado e que
procuraram as melhores terras de pastagens do
mundo então conhecido.
Como o pastoreio não oferecia dificuldades
nas planícies infindáveis da Ásia, exceto
na locomoção de um local para outro, eles
passaram a industrializar matérias-primas
procedentes de rebanhos bovinos e se dedicaram
à arte de fazer queijos. Sendo nômades por
natureza e sempre na procura de novas e
verdejantes terras de pastagens, essas tribos
errantes, eventualmente, chegaram à Europa
levando consigo seus rebanhos e a arte do
fabrico de queijos. Séculos mais tarde, essa
atividade deu origem a uma das indústrias
mais importantes e mais difundidas no mundo.
Durante o reinado dos Césares, a fabricação
do setor de queijos
e o desenvolvimento de laticínios estendeu-se
rapidamente por toda Europa e tornou-se uma
importante indústria agrícola onde quer que
se estendessem as pastagens abundantes. Roma,
brilhante centro da civilização antiga, era
um rico mercado para queijo. Nas pródigas e
fartas mesas de banquetes dos dignitários
romanos, o queijo estava invariavelmente
presente e era considerado uma rara e saborosa
iguaria. Embora alguns queijos
fossem fabricados na Itália, a principal
fonte de abastecimento era a Suíça onde a
vegetação luxuriante das encostas dos Alpes
fornecia abundante pastagem e, além do mais,
havia a mais pura água de montanha. Assim,
nasceu um produto mundialmente famoso e uma
indústria que, séculos mais tarde,
rapidamente criou raízes e floresceu no novo
mundo.
Muitas alusões ao queijo são
encontradas nas obras de Plínio, Paládio, Sêneca,
inclusive alguns dados técnicos sobre fabricação
de queijos. Nos anos que se seguiram à queda
de Roma, a Igreja começou a tomar parte cada
vez mais importante e crescente na economia da
Europa Ocidental. A maioria das indústrias
estava sob a direção de ordens religiosas e
a de fabricação de queijos não fazia exceção.
Os camponeses eram virtualmente escravos dos
proprietários de terras e a única fonte de
saber e orientação eram os mosteiros. Ali os
frades ensinavam aos servos alguns rudimentos
de agricultura e de outras artes relativamente
pouco conhecidas, tais como o fabrico de
queijos.
Através dos séculos, certos frades, em várias
partes do continente, aperfeiçoaram
variedades próprias e especiais de queijos e
as fórmulas secretas de fabricação desses
deleitáveis produtos eram cuidadosamente
guardadas como riquezas do mosteiro. Mesmo nos
tempos atuais, um queijo macio chamado Port du
Salut ou La Trappe, é feito pelos monges
Trapistas no norte da França.
De interesse
especial entre as primeiras crônicas da
fabricação de queijos, está a legendária
história do Roquefort. Este Queijo de Reis e
Rei dos Queijos foi primeiro mencionado nos
antigos registros do Mosteiro de Conques, no
ano de 1070 e foi, presumivelmente, descoberto
por acidente. Há dez séculos atrás, nos
verdejantes terrenos montanhosos de Cevennes,
próximo de Roquefort, na França, um pastor
deixou seu almoço de pão de cevada e queijo
feito de leite de ovelha, numa caverna fria
para protegê-lo contra o ardente sol. Uma
repentina tempestade desencadeou-se e ele
guiou seus rebanhos para abrigarem-se longe da
caverna onde seu pão e queijo estavam
escondidos. Semanas mais tarde, ele passou
novamente pela caverna e, sendo um homem econômico,
lembrou-se de seu almoço abandonado. O pão
de cevada estava completamente coberto de mofo
negro, enquanto que de maneira bastante
surpreendente, o queijo fora recoberto com um
delicado mofo verde. Ao prová-lo, achou-o
picante e mais delicioso do que tudo até então
experimentado por ele. Os Monges de Conques
aperfeiçoaram a descoberta do pastor e, hoje,
essas mesmas frias e úmidas cavernas de
Combalva são ainda usadas exclusivamente para
suprir o mundo do genuíno Roquefort.

Fotos
Roquefort nas Cavernas da França
Autor:
Adam Woolfitt
O
tempo foi passando e muitos tipos de queijo
ganharam fama. Conta a história que Napoleão,
em uma de suas viagens através do país, foi
servido de uma nova variedade, saborosa e
apetitosa, de queijo macio em uma estalagem. Tão
encantado estava ele com o sabor do delicado
manjar, que perguntou por seu nome. Após ser
informado de que o queijo era um produto
local, sem um nome particular, Napoleão disse
que ele deveria ser chamado Camembert, em
homenagem à Vila de Camembert, onde ele fora
primeiramente fabricado. A fama desse fino
queijo espalhou-se rapidamente e tornou-se um
tipo de queijo conhecido em todo o mundo. Mais
tarde, um monumento foi erguido em honra de
Madame Marie Harel que se acredita ter sido a
criadora desse produto típico e saboroso. A
estátua ainda hoje permanece na praça do
mercado da conservadora vila Normanda do velho
mundo. Uma das variedades mais universalmente
populares de queijo é o Cheddar, assim
denominado em homenagem à antiga e bela vila
inglesa de Cheddar, aninhada num pitoresco
amontoado de montes e vales, próxima de
Bristol, Inglaterra.
A Joseph Harding, um
fazendeiro progressista que viveu na região há
muitas gerações atrás, é atribuída a
fabricação do primeiro queijo Cheddar. Sua
contribuição foi muito além da criação de
uma variedade distinta de queijo. A ele foi
creditado o aperfeiçoamento e a sistematização
dos métodos empíricos então em uso, que se
tornou uma das pedras angulares da vasta indústria
de queijos. O processo industrial que ele
inventou tornou-se a norma para a fabricação
de queijos na América. Hoje este queijo é
amplamente conhecido como Cheddar Americano ou
Queijo Americano (American Cheese). Ele é
também freqüentemente chamado "queijo
de armazém" (Store Cheese) ou
"queijo de fábrica" (Factory
Cheese). Wiscosin é o maior produtor de
queijo Cheddar nos Estados Unidos.
Enquanto o clima e o solo são os principais
fatores para o sucesso dos laticínios, foi a
diferença inerente nos gostos e costumes de várias
raças ou grupos de povos a responsável pela
larga variedade de produtos feitos do leite.
Assim era natural que, com a evolução dessa
tecnologia, certas localidades aperfeiçoassem
e desenvolvessem variedades típicas de
queijos. Nos ricos e verdejantes vales alpinos
da Suíça, a fabricação de queijos tem
sido, por muitos séculos, uma das principais
ocupações da comunidade. Lá foi
desenvolvida a produção do mundialmente
afamado queijo Suíço, o deleitável produto
com os inesquecíveis buracos ou
"olhos" e, coisa extraordinária,
quanto maiores os olhos, melhor o produto.
Dessas mesmas abundantes terras de pastagens
provém um outro afamado queijo Gruyère,
semelhante ao Suíço, mas usualmente
fabricado sem buracos. Hoje na América, o Suíço
tem o seu valor muito destacado na produção
nacional de queijos considerados finos.
A
Holanda, terra das tulipas, dos moinhos de
vento e das históricas redes de canais
marinhos, é também famosa por seus queijos
que, durante séculos, têm sido um importante
produto do comércio holandês. Tão
distintos quanto os belos costumes dos próprios
produtores de laticínios, os queijos Edam e
Gouda são prontamente distinguidos em todo
mundo, pela sua brilhante cor vermelha e
formas características. O Edam assemelha-se a
uma chamejante bala de canhão, vermelha,
enquanto o Gouda é a mesma bala, achatada, na
forma de um disco de cêrca de três polegadas
de espessura e de dez a doze polegadas de diâmetro.
Nos cais dos portos da Holanda, pilhas bem
arranjadas de queijos prontos para embarque,
acrescentam colorido e encanto à atmosfera
dessas velhas e históricas cidades
holandesas.

Foto
de Marie Harel, em Orne - França
Autor:
Adam Woolfitt
O
protótipo dos queijos gigantes foi o Cheshire
de 149 libras presenteado em 1825 pela população
da cidade de Cheshire, Inglaterra, a sua
Alteza Real o Duque de York. O queijo Cheshire
teve origem na pequena vila de Chester, à
margem do rio Dee que, uma vez foi cena de um
encarniçado combate contra os invasores
romanos nos dias de César. O queijo Cheshire
elevou-se à altura de seu renome durante o
reinado da rainha Elizabeth e, nos aventurosos
anos que se seguiram, tornou-se conhecido
através de todo mundo.
Originariamente,
o queijo era moldado na forma do famoso
"Cheshire Cat", mas agora é feito
na forma cilíndrica com cêra de 50 a 79
libras. O Cheshire é uma variedade do queijo
tipo Cheddar, de cor amarelo intenso e bem
maturado, para desenvolver um sabor picante e
característico.
Desde
o reinado dos Césares, o queijo tornou-se uma
parte importante na alimentação dos povos
italianos. Talvez um dos mais conhecidos
queijos em todo o mundo seja o Gorgonzola, um
queijo picante com características veias
azuis semelhante ao Stilton Inglês e ao
Roquefort Francês. Consta que o Gorgonzola
teve origem em uma cidade do mesmo nome, próximo
de Milão. A história registra que, no ano
879 depois de Cristo, o bispo de Milão fez
uma doação de "Queijo de
Gorgonzola" à escola de Santo Ambrósio,
em Milão. Outros famosos queijos italianos são
o Parmesão, também um produto da Lombárdia,
e seu gêmeo Reggiano, feito na província de
Emiília, junto ao Rio Pó.
Estes dois queijos e outros como o Caccio
Cavalo, Provolone e Romano são queijos duros
e secos, usados ralados como condimento em
sopas, macarronadas, spaghetti e outros
pratos. A fabricação de queijos na América,
começou com a chegada de vacas da Europa,
provavelmente os mais valiosos bens dos
primeiros colonos. Antes de 1851 , cada
fazendeiro fazia queijo com o leite de seu próprio
rebanho e vendia seu produto a um comprador de
queijo. Um fazendeiro de nome Jesse Williams,
havia se tornado famoso pela fina qualidade de
seu queijo e, quando seu filho George
casou-se, estabelecendo-se em uma fazenda próxima,
Jesse propôs ir todos os dias à casa de
George para auxiliá-lo na sua fabricação de
queijos.
Entretanto, George não quis sobrecarregar seu
pai, obrigando-o, todo dia, à uma caminhada e
a horas extras de trabalho. Ao invés disso,
sugeriu que ele poderia auxiliá-lo na
transformação em queijo, do leite de ambos
os rebanhos. A experiência foi tão bem
sucedida, que os fazendeiros da vizinhança
ofereceram seu leite a Wilhams que, prevendo
as possibilidades de uma produção volumosa,
construiu a primeira fábrica de queijos na América
em 1851.

Fotos
Royalty Free - CORBIS
Obs:
Esta descrição foi feita através de várias
pesquisas bibliográficas e relatos pessoais
de pessoas ligadas ao estudo da origem do
leite e seus derivados no mundo feita por
Luiza Carvalhaes Albuquerque é Técnica em
Laticínios, Advogada e Especialista em
Marketing e Gerência pela Qualidade Total.
Responsável e Editora da Revista do Instituto
de Laticínios “Cândido Tostes” - Empresa
de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais -
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil.